Dois homens sem uma moto

Na rua escura caminhamos
Não sei se é a cara de medo
Que reflete em mim 
um preconceito recalcado
Ou se é um defeito 
E que, sendo,
se isso é algo contornável
Mas percebi que a maioria dos pedintes 
me dão o mesmo aviso sempre

Calma
eu não sou ladrão
Não vou roubar a senhora não
Não é essa minha intenção
Fique calma

Expliquei pra um agora há pouco
Que não era esse meu medo
Mas que minha esquiva natural 
vem do fato 
de se tratar de um sujeito 
Homem
Desconhecido
O que me acende o alerta 
de que todo risco é possível

O cara então me disse
que não era esse meu medo
Já que toda pessoa é hoje
capaz de qualquer coisa
O que não tirei sua razão
Mas finquei meu pé ao afirmar
Que falo do que só eu posso dizer

Queira ele acreditar ou não
Meu receio ao andar na rua escura 
sozinha
Era maior se o que vinha 
Numa outra esquina
era uma figura masculina
E que não era nenhuma novidade 
um homem se atrever a me dizer 
do que um uma mulher podia temer

Deixei uns trocados
E pedi desculpa pelo jeito atrapalhado 
de reagir acuada
Nunca foi minha intenção
diminuir alguém 
que com dor 
já mendigava

Mais a frente
outro homem
Paro de andar até que ele se vá
E possa acompanhar de trás
Mantenho os olhos abertos apesar do cansaço
Então não muito longe de mim
uma voz
Outro cara
A aparência também muito pobre
Que logo se apressava em me dizer
Calma, eu não vou te roubar

Novamente explico
Que do medo é impossível ser livre
Falo isso de novo
E tantas outras vezes
Como no mundo 
apavorado 
clemente por diálogo 
me pede para entender



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