Um tiro em cada pé
O primeiro foi no peito
Ou na cabeça?
Não lembro ao certo
Quando os disparos começaram
Eu sequer consegui ouvir
de onde vinham
Nem fugi para me salvar
Mas a vida tem seus mistérios
E por incrível que pareça
Escapei
Depois um novo atentado
Um ataque mudo dessa vez
Mas assim parecia
só pra quem ouvia meus gritos
Como havia tanta dor
no que eu ainda dividia?
Ninguém sabia
Porque ninguém ouvia
Ninguém além de mim
No começo
Tudo que eu conhecia
Se revelava um completo engano
Como num reino da fantasia invertida
Cheguei a duvidar
da minha própria consciência
E julgamentos
Embora os motivos para isso
fossem todos externos
Alheios
Indiferentes aos meus comandos
Então veio o momento da redenção
Olho no olho
Mas sem dente por dente
Perdoei mas nunca mais voltei
de onde eu vim
Não havia mais nada para buscar lá
Meu trauma pedia respeito
Mas a paz só me seria concedida
em troca do silêncio
Um acordo no estilo pegar ou largar
Proposto por quem
me pegou e largou
de qualquer jeito
Quanta ironia esse desfecho
Esconder feridas e estragos
Confirmar uma generosidade inexistente
Exibir sorrisos amarelos
Efetuar cadastro no banco de
Casos delicados encerrados na amizade
com sucesso
( ) Marque x para se anular a meu favor
mais uma vez
Por favor
Já para mim
Só era preciso fechar um túmulo
Caixão fechado
A natureza do tempo
cuidaria de todo o resto
E assim foi feito
Sem missa ou velório
Nenhum choro
Cada um no seu quadrado
Tudo certo
Até que um novo tiro foi ouvido
Seguido de um segundo
Um terceiro
Incontáveis barulhos invadiam
o local que novamente era invadido
Mas esse lugar sou eu
O que restou de mim
O que reformou
O que ficou pra contar história
Então o tempo passou
E minha memória era
mais uma vez abastecida
de mentiras e acusações
De quem não se cansava
De me machucar
Decepcionar
Perder um pouco pro nada
E foi nesse momento que eu aprendi
Que nenhuma paz é possível
Quando um se dedica à guerra
Nesse cenário
Ninguém sai como entra
Mais forte ou por inteiro
Mas ferir o outro
Com o propósito de tirar suas forças
É atirar nos próprios pés
Querendo que o outro não corra
Comentários
Postar um comentário