Vitamina
O corpo pede comida mas a boca está cerrada
Me esforço para que se abra como a porta que recolhi as chaves
na falsa expectativa de que tenha cópias ocultas
Como quase tudo que recentemente descobri
Corro pro espelho e procuro o que você deixou
Corpo, roupa, cabelo
Seria tudo diferente a partir dali
A mudança era de fora pra dentro
Coisa que eu não estava acostumada a passar
embora fosse sempre desse jeito
Ser trocada por uma outra mulher era uma apunhalada
E como forma de me culpar pelo fracasso veio a anorexia
Eu não podia culpar aquela mulher
Que acreditou na mesma fantasia que me apunhalou quase 3 anos antes
Era mais que empatia
Era uma pena ressentida
Sobretudo porque logo seria passado
Como eu bruscamente havia ingressado no grupo
A balança era meu vigia
A comida não vinha
Mas quem me via se preocupava
Cami, você precisa comer
Você não pode parar
Mas a Cami tinha sido parada
Separada
Interrompida
Não havia sabor nem porque
Eu só queria não ser a pessoa que havia chegado ali
Foi preciso tempo para que meu reflexo no espelho me encarasse
A gordura virou musculatura
E embora nenhum dos casos fossem extremos
Essa história serviu pra me mostrar o que processamos
quando o desamor serve à mesa
Num longo processo que nasce no recalque imenso e irreconhecível
do pedaço de carne que me substitui
Entendi que eu nunca poderia esperar nada de diferente
E que não há nada de errado comigo nisso
A porrada veio
O peso flutuou
O que se seguiu foi meu novo eu
Nada sei sobre o anterior ao que de fato se mostra meu começo.
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